Dia Internacional da Mulher

Não aprecio especialmente esta data, mas como a minha mãe até faz anos, parabéns mãe e mulheres do meu país.
Vale a pena recordar e evocar um texto lindíssimo de Maria Velho da Costa, chamado Revolução e Mulheres.http://www.youtube.com/watch?v=zwfgZImfSU4, dito duma forma brilhante por Mário Viegas com a participação de Lia Gama, e que tanto me emociona.



Um dia, quase em fim de tarde, tinha esquecido a caixa em cima da mesa. A casa enchera-se de pó. Pelas janelas de vidros enormes, já não entrava o sol. A vista para o castelo era agora um prédio de sete andares com tela preta no telhado. O rio, que se avista ao longe pela janela da porta da casa, já não tinha brilho. A água parecia não correr.


As varinas venderam todas as sardinhas e as canastras tornaram-se bibelôts em tamanho minúsculo. Já não há pregões: 'quem é que quer ver a minha lula? a minha sardinha é linda!!!!'


As gaivotas deixaram de nicar naquelas janelas. Até os pombos doentes e estúpidos deixaram de comer os restos de milho que os vizinhos teimosamente lhes atiravam.


No largo, o cauteleiro que era verde, pintou-se agora de negro. A aguarela que pintava o bairro era agora um tapete de uma qualquer loja dos trezentos.


A cidade, linda e amiga era agora uma colcha de renda amarelada e queimada pelo tempo.


Éramos agora um só.


No tempo em que festejávamos qualquer data, ou mesmo sem data, éramos dois.


Depois o meu namorado apaixonou-se e foi-se embora. A seguir veio o mau tempo. O inverno cobriu toda a cidade e levou-me com ele, para nunca mais voltar, ou então não...mas isso, só viria a saber muito tempo depois.


E a mensagem que nunca mais chega. Estava habituada a uma mensagem logo a passar as nove. Depois, seguiam-se as horas infinitas ao telefone, quase sempre com hora marcada, sempre com controle, muitas vezes com medo.


A vida não é justa para os amantes.
(continua...)

cirurgia de obesidade e custos

Tenho lido com alguma frequência, dúvidas de potenciais portadores de banda gástrica ou bypass gástrico, relativamente aos custos das cirurgias.
Se estas forem efectuadas em Hospitais privados, obviamente tudo se paga, até um agrafe. Mas, nos hospitais públicos através do Serviço Nacional de Saúde é gratuito. Só temos que pedir ao nosso médico de família que nos encaminhe para uma consulta de obesidade. Ele fá-lo internamente e, o hospital distrital chama-nos para a primeira consulta. No meu caso específico, demorou cerca de um mês e meio até chegar a data da primeira consulta que aconteceu em Julho de 2009.

Depois, seguem-se os exames pedidos, incluindo endoscopia (blhaccc) e consulta com o psicólogo e, se tudo estiver bem, é marcada a cirurgia. Agora... o operador diz e, bem, que não se está a tratar da obesidade recente, está a tratar-se da obesidade de 20, 30 anos, daí as listas de espera serem, em muitos casos, longas. A minha espera foi desde Julho/09 a Fevereiro/10, já contando com as épocas festivas e greve dos enfermeiros, etc. que sempre ajudam a atrasar um pouco mais. No caso da banda gástrica a lista é menor que no bypass que é uma cirurgia mais recente, e mais demorada. O médico deu-me a escolher entre uma e outra, frisando sempre que com ambas se perde peso de igual forma, só que com a BG o processo é mais lento mas a eficácia é igual. Contudo o Bypass é mais perigoso digamos e, irreversível. Ou seja, disse-me o operador, se não estou em erro, que a cirurgia cumpre o seu objectivo, quando conseguimos perder cerca de 30% do peso ideal. Depois se queremos mais e mais ou se conseguimos já é outra questão.

A Obesidade é uma doença crónica, mas tem tratamento.

De maneiras que somos nós que temos que dar o primeiro passo.

Força gente!



No dia seguinte cheirava a lama pois.
Lá nos encontramos de novo com muitas dificuldades.
Também desta vez total ausência de 'clics'.
Porra.

Cheirava a terra molhada.
Olhei para ti na certeza que seria apenas um olá.
Estava com medo e ansiosa e de novo com medo.
Olhaste para mim da mesma forma e não houve nenhum 'clic'.
Porra.

12º dia...

Passaram 12 dias da cirurgia. Continua a dieta líquida. Hoje fui tirar os pontos (quase todos) e disseram-me que estou mais magra yupiiiiii. Soube muito bem ouvir.
Parabéns para mim.



Esta noite vou beber licôr.


Espero por ti, com o jantar já pronto. Terei espalhado velas pela sala e, como escolhemos um dia de chuva e frio, acendo a lareira.


No ar aquela música que escolheste para nós lembras? Combinámos ás 20:00 e já são 21:00 e tu não chegas. Tinhas prometido que não te atrazavas. Tinhas prometido que mal chegasses me beijarias e levar-me-ías para a cama e só depois jantaríamos. Tinhas prometido que não aguentavas de saudade. Espero por ti ansiosa com um presente que escolhi para ti como se eu mesma o tivesse bordado.


É que sabes meu amor estou farta de promessas. Estou cansada de te sonhar. São dez horas e nem um telefonema. A comida já esfriou e a lareira vai perdendo a côr. Apaguei as velas. Deitei fora a tua comida favorita. Cuspi os teus beijos. Despi-me do teu cheiro que havia sonhado. Bebi o licôr. Vesti-me e sai para a rua á procura de afectos. Quando chegares leva o cão á rua e fode-te.

É este o site a que me refiro

Power of Change

Hoje sinto-me assim. Passou uma semana desde a cirurgia. Sete dias de dieta líquida e um de jejum total. Já faço parte dum site chamado power change cujo link deixarei mais tarde porque me esqueci de adicionar nos favoritos.
Acho que passei a fumar mais.
Estou com baixa e a ansiedade associada á inactividade deixam-me sem alternativa. Porque uma pessoa já não come e não fo*e só lhe resta entregar-se á inércia que traz vícios e, como sou propensa a eles, também tinha que ser fumadora.
Aqui em casa tenho o apoio da minha mãe e de uma amiga que tem sido imprescindível em todo este processo. Só não me carrega no colo, prática aliás impossível porque pareço mais ou menos um golfinho arraçado de cachalote.
Bem, olhei para o canto da parede da sala e pareceu-me ver um cogumelo a nascer. Um ou dois. Na volta são visões, depois vejo melhor.
Queria dizer-te obrigada e nem sei bem como. A vida tratou de nos afastar os afectos. Haverá um dia em que saberás só pelo meu olhar.
Será que vou viver até aos 50 anos só para fazer um cadáver razoável? Hum?
E com esta questão altamente filosófica me vou.

primeiro dia

De maneiras que quando terminei a operação, acordei atrapalhada com problemas respiratórios e hipertensão arterial meio grave, mas ainda tive tempo de perguntar que horas eram e finalmente a minha preocupação maior: onde é que estão as minhas cuecas? Até hoje nunca mais soube delas. É que sabem, depois de uma anestesia geral uma pessoa pode acordar grávida sem sequer se lembrar. Não lembrar foi a parte boa. Ficar sem as cuecas foi a parte necessária e cómica. Passar mal, foi porque fumo em demasia e fui avisada, e, ter hipertensão pela mesma razão.
Passei 3 horas nos cuidados intensivos. Depois, quando me consideraram estável levaram-me para o quarto as 2 e tal da manhã o que foi 1 bela hora porque ainda a noite era 1 criança claro, menos para mim. Dores abdominais, medo até de respirar, medo de tudo, aquilo parece como nos filmes, levam-nos na cama e vemos luzes por cima de nós. É uma confusão mental muito grande. Foi a minha primeira experiência neste tipo de acto clínico.
De manhã muito cedo, mal dormi com medo de me mexer, toca a levantar para tomar banho. Era tudo o que eu não queria, mas lá fui e sozinha. Não consegui descalçar umas meias especiais que me colocaram mal entrei e, que conservei até no bloco operatório. Pedi ajuda para descalçar as meias e tomei um duche rápido. Meti-me na cama porque era confortável e porque só sentia era sono. Uma coisa terrível o sono. Ás 11:30 deram-me alta e pareceu-me mal. Estava a gostar de estar ali onde me sentia segura. Mas antes, na hora do pequeno almoço: o que é que bebe? Eu disse um chá. A meio da manha trouxeram um iogurte e ao almoço, sopa rala e sumo, bebi o sumo. Vesti-me, fui visitar a Liliana e saí. A minha amiga veio buscar-me e levou-me a casa. Serviu-me um chá, fez-me a cama toda supimpa e fez-me sopa rala. De modos que na sexta feira estive apenas a soro, que alimenta mas não tira a sede,essa parte foi um horror que se manteve até ao dia seguinte á cirurgia.
Estou de baixa e agora tomam conta de mim, coisa a que não estou habituada muitos anos e é bom. Serviu também para me lembrar da amizade que é essencial agora e sempre e os afectos tem andado um pouco esquecidos ou postos de lado, mas a vida é madrasta tantas vezes.
Vou passar dois meses a dieta líquida.
Hei-de conseguir!
Depois venho aqui contar.
Hasta.
Ps - Há 3 dias que só ingiro líquidos, acham normal?

dia da cirurgia e motivação


No passado dia 19 de Fevereiro, fui internar-me no Hospital para uma cirurgia de ambulatório, eufemismo para cirurgia de atar e meter ao luar. Atei a 19 e meteram-me ao fresco a 20. Et voilá.

De maneiras que fui colocar uma Banda Gástrica, através da técnica de laparoscopia, nome requintado não vos parece? Esta técnica consiste na introdução da 'banda' através de 4 'furinhos distribuidos mais ou menos em cruz pela região abdominal. Implica anestesia geral. E perguntam-me vocês caros leitores Porque??? Ora aí está. Se estava 1 dia frio e ventoso e eu até gosto de comer é porque acho que estou gorda.

Então lá fui cheia de medo de tudo e já passou. O pior ainda está para vir. Mas o que vim aqui contar foi que, no meu quarto de ambulatório (onde se preparam os doentes para as cirurgias), estava uma menina de 23 anos que ia colocar um bypass, através da mesma técnica mas uma cirurgia mais agressiva digamos e com internamento e eventuais complicações. Mas no seu caso tinha que ser aquela. No meu caso o médico deu-me a escolher depois de me explicar as complicações de cada uma e eu escolhi a Banda.

A parte interessante e que me motivou muito foi a menina de 23 anos, aparentando uma idade muito superior á minha por via do excesso de peso. Tinha o seu caminho delineado...então ela lá me explicou tudo, o que lhe iria acontecer ao corpo, todas as dificuldades previstas e finalmente a sua meta. Dizia ela: - Olha eu sou uma crisálida, uma lagarta feia e vou sofrer muito e tudo dependerá de mim porque isto é apenas uma ajuda para no final me transformar em borboleta. Vou tatuar 1 borboleta na perna ou nas costas e terei chegado ao fim da meta e vou conseguir.

Aquelas palavras comoveram-me, porque eu mesma precisava de pensar da mesma forma mas não. Agora já penso. Obrigada Liliana pelo teu ensinamento de palavras de esperança. Espero que daqui por 6 meses já tenhamos chegado a meio do percurso e que em mais seis meses consigamos cortar a meta e então aí também vou querer ser uma borboleta, mas a minha tem que ser azul, eu lá saberei porque.

Olhares


Esta é a banda que me foi colocada. Objecto simpático não acham?

Esta sou na véspera da cirurgia já meio perturbada

Esta continuo a ser eu um pouco mais perturbada ainda.


Esta é a imagem de como o objecto ficou dentro de mim.





Este é o meu olhar ainda indeciso.

memórias...

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs e eu.
depois, a minha irmã mais velha casou-se.
depois, a minha irmã mais nova casou-se.
depois, o meu pai morreu.
hoje,
na hora de pôr a mesa,
somos cinco,
menos a minha irmã mais velha
que está na casa dela,
menos a minha irmã mais nova
que está na casa dela,
menos o meu pai,
menos a minha mãe viúva.
cada um deles é um lugar vazio
nesta mesa onde como sozinho.
mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa,
seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo,
seremos sempre cinco.

(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "A Criança em Ruínas"/ Edições Quasi)

estou sempre chateada.
quase sempre triste.
uns dias
disfarço melhor que outros.
hoje não disfarço.
este poeta é um génio.
vão ver.

De maneiras que é assim...faz hoje 9 anos que mudei de vida.
Mudei muitooooooooooo.
O número da porta do meu local de trabalho é o 13.
O meu pai faria anos.
Gosto do 13.

Este Livrinho é da Autoria da Daniela e da Patrícia bacalhau, designadamente autoras das imagens e dos textos. Um livro muito interessante para crianças e adultos.
Eu tenho um.
A Patrícia é mãe da minha sobrinha, o que me muito me honra.
Nota: Sebastião e Maria encontram o Castelo (de Arraiolos).

Bruno Lopes

"Contributos para a História dos Tapetes de Arraiolos", de Bruno Lopes, é o título da obra que foi apresentada no passado dia 7 de Novembro, pelas 17.30 h., no edifício Arraiolos - Multiusos, em Arraiolos.
Trata-se de uma co-edição entre a Apenas Livros e a Terramar e conta com os apoios da Câmara Municipal de Arraiolos, do Instituto de Estudos de Literatura Tradicional, da Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva ed o Centro de Apoio às Tapeteiras de Arraiolos.
O Prefácio foi assinado pelas Prof. Doutora Antónia Fialho Conde e Prof. Doutora Ana Cardoso de Matos, docentes do Departamento de História da Universidade de Évora.

Não conheço o livro ainda, conheço apenas o Bruno e deixo os meus parabéns pelo lançamento desta obra que será certamente mais 1 contributo para que possamos melhor conhecer a nosso História.


'Nas galerias da memória, a Cultura de viver é uma Arte em ruínas.
Mas... mora ainda a nossa História,
Na grandeza da partilha,
Destas coisas pequeninas'
(Carlos Lopes Bastos - Caló)



No dia 24 de Outubro último fui à Casa do Alentejo, em Lisboa, espaço onde não entrava há cerca de 20 anos. Desta vez para assistir à apresentação de um livro de uma querida amiga que já não via há muito muito tempo.
A obra chama-se 'Monsaraz - Reconstruir a Memória' e foi muito bem escrita pela Ana Paula Amendoeira. É das edições Colibri e custa 15 €.
Comprei 1 exemplar. Ganhei um autógrafo e uma dedicatória que muito me emocionaram e honraram.
Enfim... tal como diz a Paula sobre Monsaraz, precisamos nós também, tantas vezes, reconstruir algumas coisas; a Casa do Alentejo para começar, que está 'velhinha', a amizade que tantas vezes não é regada, a certeza de que sozinhos não somos nada e, a certeza maior de que os amigos são uma bênção em absoluto e tantas vezes não nos lembramos deles (mea culpa).
Aqueles foram momentos de emoções fortes para mim...
Para a Paula: Gostei de te ver, ouvir e saber do teu percurso académico brilhante. Gostei sobretudo de rever esse brilhozinho nos olhos e lembrar que és minha amiga.
Obrigada.

Este é o meu estômago...

Não comecem já a inventar o resto da frase...
Hoje fui fazer uma Endoscopia alta.
Tenho 'erosões' em 3/4 do estômago e 'biopsaram'. Fiquei apreensiva. Queria descrever a sensação de ter um tubo enfiado até ao duodeno, mas o meu colega que é digamos 'criança' -lo duma forma brilhante. Ora reparem..quando ficámos só nós no trabalho, mesmo ao fim do dia, ele falou-me das técnicas e das dificuldades que os actores de filmes porno têem, quando estão a trabalhar. Diz ele que existe um programa num dos canais cabo que conta tudo sobre a produção dos ditos filmes, e perguntou-me assim:
- Lembras-te do filme 'Garganta Funda'?, eu disse quem não lembra, cof, cof, cof...
- Então eu lembrei-me que as meninas pah precisam de 1 ano no mínimo para engolirem aquilo tudo. Imagino tu hoje, quando fizeste essa porcaria. Eu digo isto (ele), por causa dos vómitos pois...
Eu perguntei, engolir exactamente o que? Ele disse timidamente, a pila. E continuou dizendo, aquilo deve custar 'pa ca*al*o' digo eu (dizia ele). Eu disse-lhe:
- Olha amor, fica com este conselho, se um dia tiveres que optar entre fazeres uma Endoscopia e mamares uma pila, opta pela segunda.
Ele riu-se muitooooooo.


Magia...

Fui ver os Amália Hoje ao Coliseu, no dia 7 de Outubro último...foi simplesmente mágico.

Felicidade...







'Contigo sinto-me livre' - dissera-lhe.


Terá valido a pena chegar até aqui só para ouvir coisa tamanha.


Não acreditava em milagres e, o sol, quando era muito forte é porque era verão certamente, ou mesmo quando chovia muito e fazia frio, devia ser inverno. Tudo tinha uma explicação. Menos esta força imensa, que só a natureza explica, que lhe tomou conta da alma, do corpo e dos sentidos.
Quase lhe roubava a vida.

Nunca mais fora a mesma.
'Ouve lá' - dizia-lhe. 'Tu ainda nao entendeste que fazes parte de mim? que somos uma unica pessoa? que tudo o que tu sentes eu sinto igual?'.
O inesperado das palavras fazia-a sentir viva de novo. Já não estava habituada. Agora a vida tinha novo sentido, Aquele sentido que só os poetas conseguem passar para o papel....