A Minha Lareira


O Meu Quintal



O Jantar de Hoje

Hoje é Domingo. O Jantar vai ser empadão, regado com muito vinho como sempre.
Aqui cometemos vários pecados, sendo que o da Gula é certamente um deles.
Jantar para dois, á luz da vela. O S.Pedro vai encarregar-se de tratar do assunto. O romantismo mora ao lado. O pecado mora aqui. Se ao menos houvesse Lisboa ao fundo...

Só droga, tabaco não por Hernâni Carvalho

'Vai haver salas de fumo nas prisões. Fumar é muito perigoso para a saúde. Chutar na veia é que pode ser em qualquer cela. É um fartar vilanagem. O desnorte é tal que a Direcção-Geral dos Serviços Prisionais (DGSP) anunciou que vai permitir a criação de zonas para fumadores nas prisões. Isto é, a DGSP vai fazer a subida fineza de permitir aos presos fumarem. Na sua magnanimidade, a DGSP diz que vai autorizar que se fume, mas com regras. Claro! Fumar é tão perigoso que não é em qualquer lugar da prisão que alguém se pode atrever a fazê-lo. Claro. Não vai ser pegar na beata e acendê-la, assim, “à brava”, sem mais nem menos. Isso é perigoso! Já a droga não. A droga que pode ser consumida em qualquer cela. E a DGSP até serve kits para que a droga seja consumida em condições. E até diz que vai dar formação aos guardas para entregarem os Kits. Pois. Os anjinhos não sabem. Mas com o consumo do tabaco não. Aí todo o cuidado é pouco. O consumo de tabaco é tão perigoso que a criação das áreas de fumo nas prisões, está dependente da iniciativa dos directores. Ou seja, se o senhor director deixar, os presos podem fumar. Se o senhor director não deixar, os presos só se podem drogar. Estou a ver. Claro que a excepção será aberta se um dia o presidente da ASAE for detido. Aí aplica-se a lei do jogo que se sobreporá à lei da droga. Perdão, do tabaco. É o desnorte e o cinismo total. Os presos que fumam também deveriam exigir um kit para fumar. Talvez com um isqueiro, um cinzeiro e um pedido de desculpas do governo por pretender a estupidez de controlar o uso do tabaco nas prisões quando nunca conseguiu controlar o uso e consumo desmedido de drogas em qualquer prisão do país. É o cinismo no seu melhor. O ministro das Finanças não soube explicar (será que sabe explicar alguma coisa?) a José Sócrates que os fumadores são os melhores pagadores de impostos do país. Pagam uma fortuna de impostos, e não dão despesa. O dinheiro dos impostos sobre o tabaco chega aos cofres do Estado sem que este gaste um tostão. O combate à droga é uma despesa permanente de resultados medíocres. Nem o combate ao consumo tem tido sucesso, nem a sua fiscalização é barata ou eficaz. Quanto gasta o Estado nisto? Sócrates não soube ver. Asae. Perdão, Azar.'
Hernâni Carvalho, Terça 8, às 9:03

Fiadeira, Desenho de Vasco Calado





Óleo sobre Tela, Dordio Gomes

Tapeteira, Desenho de Vasco Calado


Tapete de Arraiolos

Ausência


Lisboa ao fundo...










Cíúme


Finje que foste comprar tabaco e que voltaste agora.

Como assim?

Já te disse, finje que foste comprar tabaco e que voltaste agora.

Já comeste?

Comi.

Comeste o quê?

Duas sandes de atum.

Afinal estás a beber. Prometeste que não bebias mais a partir do dia 1.

Pois, pois.

Até tinha medo de voltar para casa eu. Já esperava esta merda. Eu sabia.

É apenas mais alguma coisa que se quebra.

Mandei-te 1 mensagem a avisar.

Mensagens mandam-se aos cães.

Pois...a ti eu telefono.

Não percebi que não vinhas dormir a casa e na manhã seguinte fui ler de novo a mensagem. Aí percebi que não vinhas dormir a casa. Mas ninguém sai de casa num dia, para ir 'variar,' e, volta no dia seguinte ás 8 da noite.

Pois, devia ter voltado depois do meio dia que é quando temos que sair do Hotel não é?

Não sei. Não quero saber. Não me contes. Não tenho nada que ver com a tua vida nem quero ter. Aliás, nunca mais saio contigo a lado nenhum. Ninguém 'caga´em mim como tu 'cagas'.

Afinal queres saber.

Não quero saber. Não me contes.

Estás magoado tu. Estás ferido de morte.

Ahhhhhh agora que percebeste que as coisas estão a dar para o torto vens com 'mamas de cão'. Não adianta vires com 'mamas de cão', porque já não adianta nada.

Afinal já não somos companheiros? Já não vamos morrer no mesmo dia?

Claro que não. Isso já foi...













(para a Guida)


“Tenho a mania dos dramas”, disse-me ela, depois de me ter dito outras coisas, dessas que a gente ouve como se estivesse à conversa com os nossos próprios pensamentos.Eu não lhe disse que também tenho, não era preciso. Nem lhe disse que de poeta também só tenho a alma. Nem lhe disse que também me fui tornando exigentemente selectiva quando chega o momento de entregar uma chave de mim. Às vezes não é preciso dizermos nada. Às vezes outra mulher pode ser o espelho de nós mesmas, ou melhor, a imagem aperfeiçoada de nós mesmas. Às vezes com outra mulher podemos baixar as defesas e mostrar o medo e a celulite, a cobardia e os cabelos brancos, a insegurança e as mamas descaídas.Espreitei-lhe os gestos e o perfil enquanto fumávamos na varanda, enroladas na velha manta de lã. Adivinhei-lhe os contornos escondidos, escutei-lhe o silêncio. Estendi-lhe a minha mão fria e vazia e ela guardou-a no seu corpo quente.Depois, sem beijos nem carícias, as duas percebemos que de tão pouco se fazem os momentos de serenidade.
Mais um mimo que me ofereço de novo. Texto da amiga Rosa , colega Bloguista de a Funda São, que escreve com aquela massa de que é feito o poeta.
Daqui lhe desejo um novo ano de 2008, cheio de esperança.
Com a devida vénia.

Promessa


Não desanimes por me veres ao lado

Triste como um ribeiro que secou.

Isto passa.

Podes ter a certeza.

Basta o degelo começar...

O poeta é uma graça

Da natureza,

Há-de sempre cantar.

Arranja pois as jarras da alegria,

E vai sonhando já dos meus desleixos...

Eu volto a rolar seixos

Qualquer dia.



(Miguel Torga)


Óleo sobre Tela, Dordio Gomes

Dobadeira, Desenho de Vasco Calado
















Com licença poética

Quando nasci
um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta,
anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim,
ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo.
Cumpro a sina.
Inauguro linhagens,
fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida
é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável.


Eu sou.


Adélia Prado

Dona Doida

Uma vez, quando eu era menina,

choveu grosso
com trovoadas e clarões,

exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.
Minha mãe,

como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho,

angu, molho de ovos.
Fui buscar os chuchus

e estou voltando agora,
trinta anos depois.

Não encontrei minha mãe.
A mulher que me abriu a porta,

riu de dona tão velha,
com sombrinha infantil

e coxas à mostra.
Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.


Adélia Prado

Tosquia...


Óleo sobre Tela, Dordio Gomes
Tosquia, Desenho de Vasco Calado